sábado, 11 de julho de 2020

Purpleboy (2019)

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Purpleboy de Alexandre Siqueira (Portugal/França/Bélgica) é uma das curtas-metragens presentes na competição oficial de Animação da sétima edição do Leiria Film Fest que, este ano, decorre nas plataformas digitais do festival devido à actual situação de emergência sanitária.
Oscar nasce no jardim da casa dos pais. Ninguém sabe o seu sexo mas ele afirma ser rapaz. Num momento autoritário e opressivo poderá Oscar ter o reconhecimento que deseja?
O argumento desta curta-metragem - num positivo e distinto elogio à obra de Siqueira -, repleto de representatividade e simbologia, afirma-se essencialmente como uma ode à individualidade e ao poder da auto-representação tão, e cada vez mais, difícil num mundo onde a transformação e a aceitação do "outro" são, a cada dia que passa, tarefas árduas para aqueles que pretendem uma normalização do "eu" como a referência social predominantemente aceite e estilizada. Normalização essa que colide com toda uma diversidade que por vezes não se compreende, outras não se observa e, tantas outras, não se conseguem identificar mas, fundamentalmente, não se pretendem aceitar como parte de um todo colectivo.
Nesta perspectiva, Purpleboy é um filme inovador cujo recurso à animação pretende, conscientemente ou não, alcançar um público diversificado - a nível etário - e, dessa forma, facultar uma abordagem a essa diversidade que pareça não só fruto de uma obra que se pretende de entretenimento mas, sobretudo, uma que tenta de forma construtiva deixar uma mensagem educacional sobre essa já mencionada diversidade e a sua validação pela sua compreensão. Purpleboy desmistifica a cada fragmento o esperado papel social homem versus mulher. Porque não poderá alguém nascido no corpo de uma mulher ser, no fundo, um homem... porque terá um homem de gostar de futebol e não de jardinagem... Porque terá de existir uma cor ou um comportamento que determine o papel social de cada indivíduo e não os seus gostos, as suas acções ou os seus sentimentos... indo mais longe, porque terá alguém de ser definido ou "determinado" seja pelo que fôr e não ser simplesmente... ser?!
Inteligente pela mutação da história que evolui à medida que cada fragmento é exposto, e expõe, um determinado momento na história de "Oscar" e da sua (auto-)transformação consciente que nos é revelada através de pequenas imagens e simbologia (do sangue ao avião em forma de quinta como representação dessa transformação e de uma "viagem"), Purpleboy exibe uma energia muito própria também graças a uma intensa música original de Christophe Petchanatz que lhe confere um espírito tão ou mais irreverente que o protagonista mas, ao mesmo tempo, a necessária e esperada sensibilidade para que o seu público consiga encontrar pontos de referência e empatia se não com ele... pelo menos com a sua história, e francamente imaginativo pela forma como aborda certos lugares comuns do papel social (esperado) de cada um, quebrando inesperados tabus, dissolvendo ideias pré-concebidas sobre os mesmos e onde todos os momentos têm um próprio e necessário sentido que vinga pela sua pertinência e sentido.
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8 / 10
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