sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Mientras Duermes (2011)

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Enquanto Dormes de Jaume Balagueró que aqui abandona a saga [REC] para dar vida a uma igualmente (in)tensa história onde o terror assume um rosto bem mais humano mas não menos tenebroso e assustador.
César (Luis Tosar) é o pacato zelador de um prédio em Barcelona. Vive uma vida aparentemente normal e é cordial com os moradores daquele prédio com quem aprendeu a conviver e está sempre prestável para os auxiliar nos seus pequenos problemas domésticos.
Mas o que acontece quando essa cordialidade ultrapassa os limites da simpatia para dar lugar a algo mais tenebroso como a invasão da propriedade, e da intimidade, alheia? Especialmente quando César desenvolve uma secreta e doentia fixação por Clara (Marta Etura), uma das moradoras do prédio. O que acontece quando aquele simples e simpático homem esconde afinal uma grotesca necessidade de viver a vida e a felicidade dela?
Existirá segurança dentro do seu próprio lar ou estará ela a ser cobiçada e voluntariamente violada tornado tudo o que diz e faz alvo dos olhares mais indiscretos, mas igualmente secretos, de César?
Foram dois os elementos que me levaram a querer ver este filme na edição deste ano do MOTELx. Em primeiro lugar a participação numa interpretação principal de um dos melhores actores que a terra de nuestros hermanos tem... Luis Tosar. Quem o viu em Te Doy Mis Ojos ou Celda 211 pode ter uma ideia de que sempre que ele participa num filme... este TEM de ser visto. Se a este magnífico actor juntarmos um peso pesado do cinema de terror espanhol como é Jaume Balagueró que já entregou os dois primeiros títulos da saga [REC] e outro êxito como é o caso de Los Sin Nombre, então só podemos esperar uma mistura explosiva e que é seguramente uma aposta ganha para aqueles que pretendem assistir a este filme.
Aqui não temos nenhuma história demoníaca onde os sustos que possamos ter dependem quase exclusivamente de uma caracterização mais arrojada e bem conseguida ou tão pouco da existência de uma seita que domina as vontades alheias. Aqui aquilo que devemos temer surge de onde menos se espera... escondido por detrás de um amável sorriso de alguém a quem estamos habituados a dar os bons dias.
De todos os lugares imagináveis no mundo, por mais turbulenta que possa ser a localidade, só há um onde podemos dizer quase com certeza sentirmo-nos confortáveis e em segurança... a nossa casa. Este filme expõe exactamente o oposto... o que acontece quando a segurança e tranquilidade desse local são expostos e o sentimento desaparece criando no seu lugar, uma sensação de vulnerabilidade que o expõe transformando-o assim num espaço onde nenhuma das nossas acções parece ser ou estar no recanto da nossa própria privacidade. Sem um contacto físico directo aquilo que aqui surge é uma sensação de descorfo e de violação.
A assombrosa interpretação de Luis Tosar é o que nos provoca. Se inicialmente simpatizamos com aquele agradável homem que está sempre disponível para auxiliar os moradores daquele prédio nos mais variados problemas, o que é também certo é que aquele excesso de simpatia nos deixa de certa forma incomodados. Percebemos, sem saber o quê exactamente, que algo de muito errado se esconde por detrás daquele estranho comportamento e olhar. Cedo se desvanecem quaisquer dúvidas quando percebemos onde César (a sua personagem) se encontra. Tosar é o mal encarnado num rosto disponível e simpático. A última suspeita que qualquer pessoa poderia ter. No seguimento das suas personagens em filmes como Te Doy Mis Ojos ou Celda 211, aqui mais uma vez demonstra ser um indivíduo simplesmente mau. Se no primeiro filme essa maldade surge através de uma educação reprimida e recalcada, e no segundo fruto da (con)vivência com os maiores criminosos que alguma vez poderia conhecer, aqui essa mesma maldade surge como fruto de uma vida que nunca fora acompanhada por qualquer tipo de afecta e que, como tal, se sente obrigado a obter custe o que custar sem olhar a meios, formas e fins.
Se por um lado Luis Tosar é o rosto do mal, seria incorrecto dizer que ele é o único que "povoa" este filme. Para quem já viu as anteriores obras de Balagueró, mais concretamente Los Sin Nombre e [REC], recorda-se que é uma constante a existência de uma jovem menina que assume um papel importante no desenrolar da história. No primeiro é a busca por aquela criança desaparecida que assume o centro de toda a trama e, uma vez encontada, é ela que assume o rosto do mal ao revelar quais as suas verdadeiras intenções. No segundo é a jovem criança que se assume como a portadora do virus que irá infectar todo o conjunto de habitantes daquele prédio barcelonês. Aqui Iris Almeida, a jovem "Úrsula", assume-se como uma das encarnações do mal quando consciente e deliberadamente faz chantagem com "César" para dele obter o que quer e não o denunciar. Se por um lado é o rosto demasiadamente simpático de César que nos faz desconfiar, por outro também é justo dizer que é a inocência (ou falta dela) desta jovem criança que nos faz tremer com a capacidade que tem em assustar um dos grandes vilões.
Aqui o medo não surge pelo grotesco, pelo sangue, pela tortura física ou pela clausura claustrofóbica. O medo aqui surge pela possibilidade que existe em sentirmo-nos inseguros no nosso espaço por entre os nossos haveres e bens. Como eles podem ser vistos, tocados e essencialmente violados simplesmente pela possibilidade que o "outro" tem em fazê-lo.
Um filme de suspense intenso onde o terror surge de alguém "como nós", sem uso a artíficios e caracterização grotesca, e que é capaz de perpetrar o mais puro mal como única forma de ser feliz e viver uma vida normal... diferente daquela que tem. Ainda a exibição vai a meio mas este é sem dúvida um dos pontos altos da edição deste ano do MOTELx e possivelmente assistimos aqui à estreia de um dos melhores filmes exibidos este ano numa sala de cinema nacional.
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9 / 10
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