domingo, 20 de novembro de 2016

A Um Mar de Distância (2016)

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A Um Mar de Distância de Pedro Magano é um documentário português presente na Selecção Oficial - Em Competição da XXIIª edição dos Caminhos do Cinema Português que decorrem em Coimbra até ao próximo dia 26 de Novembro.
A história daqueles que ficaram para trás esquecidos por um passado que não está dignificado na História. Quantos pescadores terão morrido em terras longínquas como o Canadá ou a Gronelândia, ou até mesmo aqueles que morreram no mar nunca encontrando na terra o seu descanso eterno.
Abandonados por um país que ora os glorificou e depois os esqueceu, para além da memória pessoal... onde residem os registos destes homens que nunca regressaram ao seu país?
Num registo de entrevista, Pedro Magano aproxima o espectador de alguns dos tripulantes do Santa Maria Manuela que testemunham sobre o seu período mais negro e sobre a morte de um dos seus - Dionísio Esteves - aos vinte e seis anos de idade, esmagado por uma onda tendo sido, posteriormente, enterrado no Canadá em 1966. Com o recurso a imagens de arquivo e histórias na primeira pessoa de alguns dos tripulantes como Manuel Maio ou Celestino Ribeiro com vívidas memórias da época, A Um Mar de Distância reflecte a memória e os sentimentos ainda presentes destes homens que exponenciam o medo sentido desde então de um mar que levava impiedosamente os mais jovens e que impedia que os seus corpos regressassem a um país Natal.
Mas não é apenas sobre esta morte física que A Um Mar de Distância se refere. O documentário de Pedro Magano teoriza ainda sobre outro tipo de "morte"... aquela que não sendo física é psicológica, sentida por parte dos familiares que, privados pela distância, sofrem a ausência de um ente querido desaparecido no mar ou enterrados numa terra distante à qual nunca - ou pelo menos muito dificilmente - poderão ir chorar pelos seus e deixá-los com uma última despedida nunca concretizada. Perdidos mas nunca esquecidos, alguns destes familiares passaram toda uma vida a querer visitar os locais onde os seus se encontram sepultados, por vezes perdidos em extensos cemitérios cuja própria erosão do tempo os faz perderem-se e ficarem irreconhecíveis sem nenhum registo para a memória posterior.
Vidas desfeitas pela separação forçada que o meio físico e climatérico assim decidiu, é no presente que esta memória começa a ser recuperada pelo incansável trabalho de associações que pretendem aproximar estas memórias e que este documentário tão bem regista, como uma expiação que pretende encerrar todo um capítulo na vida dos mesmos. Finalmente, anos e anos depois destas separações forçadas que distanciaram filhos de pais, irmãos, primos e amigos, é aqui registado que se consegue finalmente dar um descanso não só aos desaparecidos que ficaram no outro lado do mundo como principalmente aos seus que viviam eternamente numa angústia pela distância e por nada saberem dos seus desaparecidos - como neste caso - desde a década de 60.
Pessoal e com vários momentos francamente emotivos e, de certa forma, improváveis pela distância de gerações que, fruto do antigo regime ditatorial, estavam impedidos de questionar os "porquês" do seu próprio passado, A Um Mar de Distância transforma-se não só num documentário que elucida - num estilo jornalístico - o espectador de uma parte da sua História que era (é?!) até agora desconhecida, ao mesmo tempo que exerce uma função quase psicológica ao conferir uma possibilidade de descoberta e divulgação - aos familiares como parte interessada - do passado deste país de marinheiros e navegadores às gerações presentes que os sucederam.
Importante enquanto um registo histórico, A Um Mar de Distância surpreende pelo seu registo pessoal e informativo sobre aquela que é uma das actividades mais características de um povo que sempre teve no mar uma fronteira que quis conquistar e ultrapassar.
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7 / 10
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