quarta-feira, 30 de novembro de 2016

iBhokhwe (2014)

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iBhokhwe de John Trengove é uma curta-metragem sul-africana exibida durante a Sessão #5 do Shortcutz Rio de Janeiro este mês de Novembro que conta a história de um jovem Xhosa que recupera de uma circuncisão numa cabana no topo de uma montanha.
Enquanto ali se encontra, este jovem aguarda pela chegada dos anciãos que o devem encaminhar para a sua nova etapa de vida mas que, no entanto, parecem nunca mais aparecer. Da paciente espera ao desespero, o jovem Xhosa parece estar sózinho no mundo.
Logo no início da curta-metragem de John Trengove, o espectador é informado sobre o significado do Ukwaluka, ritual de circuncisão masculina que marca a passagem do jovem rapaz para a idade adulta sendo ainda uma respeitada "cura" para a homossexualidade.
Perdido dentro de um espaço confinado, e no qual apenas pode esperar por aqueles que o vão lançar na sua nova etapa de vida, este jovem parece abandonado no seu próprio desespero apenas momentaneamente acompanhado por uma criança que ali vai saber da sua situação. Sem a companhia dos anciãos da vila, será Xolani (Nikosipendule Cengani) mais uma vítima de um preconceito social - e tribal - que ali está como que culpado de um qualquer "crime" e condenado a um esquecimento comunitário? Para esta questão poderá facilmente encontrada uma resposta quando - e se - o espectador se recordar de forma imediata da primeira explicação encontrada para a prática Ukwaluka, ou seja, a circuncisão masculina como fora de "cura" da (homo)sexualidade dos jovens. Desta forma, percebemos que este ritual de transição não será tanto pela "chegada" de um novo homem membro da tribo mas sim pela sua transformação naquilo que é - para eles - aceitável para a mesma expiando a sua condição e o seu ser no que consideram ser benéfico para um todo.
Moralmente duvidoso pelo seu contexto social mas compreensível - o pensamento e não o acto - pela comunidade que esta curta-metragem pretende retratar, iBhokhwe é assim o espelho de um abandono e de uma ostracização social de um jovem que pretendeu viver uma vida moralmente digna para com o seu ser mas que se viu preso às amarras de um conservadorismo - social e moral - alheio que o tornaram num elemento indesejado entre os seus. Este isolamento espelhado não só pelo abandono dos seus como também pelo socorro que pede e que não é respondido definem principalmente a sua comunidade que deseja um grupo forte e coeso mas que elimina pela diferença através de um conjunto de rituais iniciação (exclusivos) e que para lá de garantirem meios de sobrevivência em condições adversas - até que ponto pode esta homem outrora criança resistir num meio adverso -, o condenam a um esquecimento social privando-o de meios de subsistência, de auxílio e até da visita ou companhia dos seus (até então) entes mais próximos.
A cabra - o resistente final - normalmente associada a uma simbologia de liberdade e anseio de ruptura com as normas estabelecidas é então, a figura representativa de um jovem "Xolani" que resolveu fugir do seu casulo imposto e encontrar vida - ou falta dela - no mundo exterior que desconhece mas que terá de forçosamente abraçar pela indiferença dos seus. Quando alguém se lembrar - finalmente - da sua existência, apenas irá encontrar aquilo que dele ficou... a imposta auto-libertação.
Simbólica e metafórica iBhokhwe é uma curta-metragem que vive de símbolos, suposições e enigmas que mesclam a tradição e o conservadorismo como a capacidade de revelar uma mente criada no seu meio mas desejosa de conhecer - e viver - todo um mundo exterior onde pode expressar o seu "eu" e viver esse tal "perigoso" desconhecido.
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8 / 10
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