domingo, 20 de novembro de 2016

Estilhaços (2016)

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Estilhaços de José Miguel Ribeiro é uma curta-metragem portuguesa de animação presente na Selecção Oficial - Em Competição da XXIIª edição dos Caminhos do Cinema Português que decorre em Coimbra até ao próximo dia 26 de Novembro.
Através da animação, José Miguel Ribeiro estabelece os princípios de uma interessante e não muito explorada premissa... Como é que a guerra se instala? Como é que, anos depois de terminar, um "vírus" se volta a instalar e afectar os seus hospedeiros? Poderá uma semente morrer ou apenas adormecer, instalando-se no mais profundo ser até voltar a despertar relembrando feridas do passado? E, no final, a eterna questão... poderá este vírus ser transmissível de geração em geração?
Também autor do argumento, José Miguel Ribeiro volta a surpreender com mais uma das suas intensas e magníficas animações destacando-se, uma vez mais, pela junção da qualidade da própria animação e com a adição de um pertinente argumento capaz de chegar a todos os diferentes públicos.
Logo de imediato acompanhamos "Mário", um homem que observa dentro do seu automóvel, os festejos de uma qualquer competição desportiva que decorrem "lá fora". A distracção dá lugar a um acidente e os eventos que daí sucedem cedo o fazem recordar outro momento do seu passado comparando ambas as situações e daí retirando uma reflexão não necessariamente sobre a sua infância mas principalmente sobre o homem em que se transformou.
Chegado a casa do seu pai, "Mário" parece estático e observa impávido o jogo de futebol como todos os domingos faz. A conversa, que se fazia prever, desvenda o mistério que o assombra e os traumas que retém deste jovem idade, principalmente relacionados com o excesso de violência que o jovem homem sentia nas atitudes de um pai marcado por um passado nunca expiado. A intensidade dramática sentida entre "Mário" e o seu pai parece não abrandar até este lhe contar um evento do seu passado durante a guerra colonial.
Os horrores da guerra, o constante e presente medo da perda, da mutilação, das emboscadas e até mesmo o de nunca regressar a um país que os lançou num conflito civil fraticida, lançaram este homem num distanciamento pouco natural das suas emoções, da sua família e até da própria realidade. O isolamento que - então - o jovem "Mário" sentia de um pai que estando presente fisicamente se encontrava distante psicologicamente, lançam-no numa violenta incerteza emocional que primeiro o fazem (fizeram) temer pela sua segurança dentro de um lar instável e depois recear o seu próprio comportamento quando exposto perante uma situação limite numa sociedade distante de uma guerra nunca terminada... quarenta anos antes.
Dos traumas de guerra à culpa. Do isolamento emocional à necessidade de (se) fazer sentir perante emoções extremas, Estilhaços - aqueles da guerra mas principalmente aqueles que são emocionais - prima por dois momentos chave na sua narrativa. O primeiro intimamente ligado a um pensamento de "Mário" que diz "sentir - os efeitos - de uma guerra que não viveu" considerando, de imediato, que estes são transmissíveis e não extintos mesmo com os quilómetros e anos de distância que agora o separam do conflito colonial em África, graças à inexistência de um acompanhamento daqueles que de lá vieram e que fruto da transição de um regime, nunca conseguiram o devido tratamento psicológico (psiquiátrico?) que deveriam ter recebido, lidando de forma solitária com os seus horrores e (im)prováveis consequências do mesmo numa sociedade que os recebeu... mas não os compreendia.
O segundo momento chave de Estilhaços prende-se com um pensamento tido pelo pai de "Mário" que lhe diz que "a morte é como os cães... só corre atrás de nós quando lhe viramos as costas", ou seja, no fundo tudo pode acontecer de forma natural até deixarmos de pensar na possibilidade do perigo, do quão vã e efémera é uma vida em cenário de intenso conflito e até mesmo depois deste, quão elementar pode ser se aqueles que passaram por esse evento traumático - e não acompanhados na sua posterioridade - se deparam numa sociedade que, não estando em guerra, não compreende aqueles que por ela passaram, os seus traumas pessoais, momentos de crise e lhes veda uma recuperação e tratamento médico. No fundo, este silenciar de um trauma ainda sentido - anos depois - é, tal como o já referido vírus, algo que se propaga, instalando-se lentamente no subconsciente daqueles que o viveram e levando a uma perpetuação de comportamentos transmissíveis de geração em geração como que uma praga que mortalmente colhe as suas vítimas.
Como um apontamento curioso, mas não menos pertinente, de salientar a transição na própria animação que confere - já próximo do final - às suas personagens rostos humanos que detêm personalidade e uma proximidade ao espectador como que uma mensagem que os aproxima do "nós" deste lado do ecrã. Personagens reais que habitam num apartamento dos muitos edifícios de uma cidade em constante mutação e que, tal como qualquer um, tem as suas histórias por resolver, por sarar tentando, a dada altura, conseguir dar o tal "passo em frente" e continuar com a sua própria vida.
Magnífico - mais um - registo do premiado realizador de A Suspeita (2000), e que para lá de ser a mais forte e marcante obra do realizador, é também aquele com uma extrema e intensa relevância histórica do passado, do presente e de um futuro que se pode perpetuar na História de um (deste) país que quarenta anos decorridos ainda desconhece uma parte significativa da mesma.
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9 / 10
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