quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Bastien (2016)

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Bastien de Welket Bungué é uma curta-metragem portuguesa de ficção que nos conta a história de um jovem (Welket Bungué) que saído de uma instituição regressa à casa de acolhimento. Bastien vive com Zezito (Daniel Neves) o irmão mais novo e Angustina (Maria do Céu Guerra), a sua avó adoptiva.
Com sonhos e desejos que parecem distantes ou difíceis de cumprir, Bastien anseia por uma oportunidade e aquilo que poderá ser uma vida melhor longe do mundo que conhece.
Tendo como pano de fundo um dos muitos bairros onde a criminalidade parece espreitar a cada esquina, o realizador, argumentista e protagonista Welket Bungué cria Bastien, uma história sobre uma - entre muitas - vida marginal repleta de sonhos por cumprir mas que, no entanto, parece ser alvo de todos os muitos e pequenos entraves que surgem ao virar da esquina. Tentando sobreviver como pode num lar onde uma avó adoptiva parece definhar lentamente ao exibir os primeiros sintomas de uma crescente demência e um jovem irmão que tem, também ele, sonhos de criança sobre um futuro como jogador de futebol, Bastien reflecte sobre esses desejos perdidos que inundam a mente de quem os ousa pensar. As oportunidades, tantas vezes facilitadas a uns e distantes daqueles que delas mais necessitam, são consequentemente vedadas pela incompreensão e por uma recorrente perseguição daqueles que julgam que o "bairro" jamais poderá sair daqueles que nele nasceram.
Enquanto o mal parece crescer e multiplicar-se à sua volta, "Bastien" tenta resistir com aquilo que cria e mais deseja... a arte. Tenta sobreviver graças ao dinheiro que faz vendendo os seus quadros, ajuda em casa uma avó perdida na sua mente e tenta incutir no jovem irmão um pensamento de que não será na rua, mas sim assumindo as suas responsabilidades, que poderá ser alguém maior... e melhor.
Num constante limbo que o colocam entre a espada e a parede, entre o mundo de onde vem e aquele para onde espera poder ir, "Bastien" encontra nas pessoas, no meio, no espaço e na miragem de uma vida passada, os fantasmas que o impedem progredir... e enquanto permanecer neste espaço que bem conhece e onde todos sabem o seu nome, jamais poderá ser aquele alguém que tanto deseja. Será possível fugir de um local que tanto define o seu ser e que o tolhe nas suas aspirações? Poderá a inevitabilidade da (sua) realidade ser mais forte do que o sonho e esperança de uma vida melhor? No fundo... será a fuga uma (e única) possibilidade?!
Para lá de uma constatação sobre as (im)possibilidades da vida, Bastien exerce sim a capacidade de mostrar que essa oportunidade pode apenas surgir quando existe uma completa vontade de libertação do estigma imposto pelo "outro". A fuga - primeiro mental e depois física - exige o corte total de laços com o espaço e com as pessoas que o habitam já corrompidos por um sistema que não espera e menos perdoa todos aqueles que ousam andar a um passo diferente. Os sonhos não podem ruir e é apenas dessa forma que o desejo se cumpre, que a tal mudança esperada acontece longe de onde se nasceu e desafiando o preconceito que tantos outros vêem - e querem observar - quando se impõe um rótulo na origem... o destino se cumpre.
Welket Bungué - actor, realizador e argumentista - é o rosto principal deste filme curto como também o de toda uma nova geração de actores portugueses que se afirmam pela qualidade e versatilidade dos seus projectos assumindo sem reservas a contemplação do espaço, do Homem que o habita e de todo um conjunto de histórias que tem para contar fazendo da oportunidade um veículo e dos objectivos uma meta a cumprir. Bastien é, desta forma, um promissor início - enquanto realizador - e uma marca de qualidade pela sua interpretação sentida de um jovem que compreende ser maior do que espaço em que se encontra e que apenas a fuga poderá proporcionar-lhe a tal vida diferente que tanto deseja... mesmo que para isso não possa olhar para trás.
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7 / 10
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