quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Violence (2019)

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Violence de Christian Meola (EUA) presente na décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta é, possivelmente, o filme que melhor encarna o espírito do terror moderno sentido e vivido na sociedade urbana na actualidade.
Acompanhamos aquilo que parecem ser vulgares polaroids de uma casa nos subúrbios de uma qualquer cidade norte-americana. Uma mulher no supermercado encontra uma polaroid perdida pelos corredores. A foto deixa-a em sobressalto.
As câmaras. A vigilância constante. Mas, estaremos nós a salvo nesta sociedade moderna onde tudo é observado a todos os instantes? Esta é a grande questão aqui levantada pelo realizador Christian Meola naquela que será muito possivelmente a mais terrorífica curta-metragem a passar pelo BAFF. Esqueçamos os filmes curtos onde o terror chega pela forma sobrenatural, pelos instintos assassinos ou mesmo por um qualquer elemento fantástico que insiste povoar o nosso imaginário colectivo. É um facto que todos nós temos medo do desconhecido, do irreal, das sombras e até mesmo de algumas daquelas histórias que permanecem na nossa mente desde crianças. Mas, o que acontece quando encontramos o terror literalmente no nosso caminho? Não um terror qualquer mas aquele que escutamos tantas e tantas vezes através de um qualquer relato de notícias ou mesmo pelo imaginário desse terror urbano onde a criminalidade parece tomar conta das ruas.
Meola consegue, nos escassos cinco ou seis minutos em que esta curta-metragem decorre, criar esse terror. O medo do desconhecido através daquilo que todos nós conhecemos. Um passeio pela rua... uma ida ao supermercado. Tudo é vigiado constantemente e nada parece ser deixado ao acaso ou fruto de uma qualquer distracção que se aproveitou da inocência alheia para marcar a sua presença. Violence é, para lá do prenúncio de uma qualquer violência física ou psicológica - que cedo se anuncia sob as duas formas -, um conto de terror que nos amedronta não pela impossibilidade do imaginado mas sim pelas possibilidades do real que lhe são conferidas pela violência urbana que se esconde atrás de um qualquer rosto que não será assim tão inocente como se adivinha.
Tudo é captado para o registo posterior mas, no entanto, todas as imagens caem no esquecimento pela incapacidade de realmente olhar para o que nos é fornecido. Aquilo que se transforma em comuns e banais elementos da nossa vida em sociedade - uma ida a um supermercado ou o registo fotográfico de elementos e momentos que nos são especiais - ganha novos contornos quando eles parecer ser uma espécie de aviso ou de indício de que algo está para acontecer (ou já terá acontecido) quando a realidade das imagens passam para lá daquilo que a nossa existência pacífica parece querer adivinhar. E, é quando aquela mulher apanhada de surpresa na sua realidade, encontra uma foto "inocentemente" perdida que o seu mundo se altera imediatamente... uma outra mulher atada. Presa numa qualquer divisão de uma casa que ninguém saberá onde é. Ou quando foi registada. Mas que nela se encontra um eventual destino de tortura que a deixou em condições não imaginadas mas compreendidas como de um extermínio registado. Aquele destino poderia ser desta outra pessoa que ali encontrou aquela fotografia. Num local comum... insuspeito... que todos frequentamos. E aqui é encontrado aquele que será o elemento mais medonho deste filme curto. Até que ponto poderá qualquer um de nós viver em tranquilidade depois de assistir a uma imagem tão perturbadora como aquela que ali foi deixada?!
O sentimento de perseguição e de tormento originado não só a partir deste instante mas, na realidade, desde que o primeiro registo fotográfico foi iniciado é, assumidamente, avassalador. O espectador compreende que nada é feito ao acaso e que se prepara para testemunhar um acto hediondo. Seja público ou privado - mais provavelmente -, nada é anunciado como podendo ter um final feliz e o jogo do gato e do rato teve o seu início e a sensação de prisioneira sentido por esta última mulher deixa-a inquieta e instável. Observada sem saber por quem. Incapaz de fazer frente a algo que desconhece mas que compreende ser propositado para ela.
O medo e a impossibilidade de reagir ao desconhecido. A certeza da vivência num mundo em que tudo é registado. O claustro público. A perseguição silenciosa. O medo do real e, finalmente a instalação do caos que precede o medo. Violence regista todos em breves instantes criando, ao mesmo tempo, aquela psicose que Amenábar conseguiu com Tesis (1996) ao deixar o espectador cúmplice deste registo macabro querendo observar todo e qualquer instante que lhe suceda mas sendo impossibilitado de registar esse horror no instante em que ele se irá confirmar.
Numa brevíssima descrição... Meola cria uma curta-metragem simplesmente brilhante e avassaladoramente assustadora que se doseia na duração perfeita para o registo do mal dando-lhe corpo, forma, tempo e espaço.
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9 / 10
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