sábado, 10 de setembro de 2016

O Segredo das Pedras Vivas (2016)

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O Segredo das Pedras Vivas de António de Macedo é a mais recente longa-metragem do realizador de Domingo à Tarde (1966), Os Abismos da Meia-Noite (1984) e Chá Forte com Limão (1993) editado a partir da mini-série O Altar dos Holocaustos (1992) e que agora vê a sua estreia mundial nesta décima edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que amanhã termina no Cinema São Jorge.
No Alentejo profundo, José Vitorino (Carlos Coelho) é um rico proprietário que possui num dos seus terrenos um aglomerado de monumentos pré-históricos dos quais pretende desfazer-se e dar lugar a uma nova casa e a uma plantação de eucaliptos.
Desrespeitando a vontade popular e com o auxílio de Júlio (Manuel Cavaco), o arquitecto que contratou para delinear o projecto, José Vitorino debate-se ainda com uma casa ingovernável, as superstições populares e a perspectiva de um negócio que parece não se confirmar. Naqueles dias que precedem o Natal, toda a povoação se prepara para uma provação que irá testar os seus limites.
O argumento de António de Macedo e António Torrado, ainda que não seja datado pois consegue apresentar um conjunto de subtilezas e premissas que estão, de certa forma, ainda presentes neste já não tão novo século mas, ao mesmo tempo, a produção e edição fruto das filmagens do início da década de 90 apresentam aqueles pequenas falhas que estavam - à altura - inerentes à própria produção e que todos nós reconhecemos - até em sala - nomeadamente o extenso conjunto de figurantes que parecem divagar pelo espaço num silêncio quase mumificador e até mesmo o leque de actores que tão bem conhecemos que, muitos deles, deambulam pelo cenário com participações quase ditas especiais sem terem as suas personagens devidamente desenvolvidas. Dito isto, porque não está a personagem de uma então muito jovem Rita Salema mais desenvolvida ou mesmo a de um João Lagarto, vítima dos problemas económicos de então mais dinamizado mantendo-se quase exclusivamente como um pária num filme onde poderia ter sido mais central?!
A acentuada dispersão das personagens, da qual apenas parece sobreviver um "Júlio" de Manuel Cavaco dinâmico e presente num espaço bafejado pelas superstições populares e com os seus próprios demónios económicos por resolver, parece inevitável quando tantos e bons actores tentam fazer sobreviver as histórias das suas personagens num filme que tem, de certa forma, o seu tempo limitado. "Júlio" é assim um homem da cidade, descrente e até apático para as pequenas superstições populares de uma aldeia perdida no tempo que parece alimentar-se de tradições e rituais antigos que, na grande cidade, mais não são do que devaneios pagãos que subsistiram no tempo. A sua vida marcada pela visível ruína económica marcou uma época - agora distante - onde as sucessivas alterações financeiras ameaçavam a sustentabilidade não só das famílias da cidade como também aquelas que perdidas nos locais mais remotos do país definhavam com a perda de trabalho, com a fome, miséria e a eventual perda dos seus pertences. Estes vislumbres de uma crise que já então pareciam querer fazer marcar o país pelas fortes clivagens sócio-económicas, marcavam a existência daqueles que muito tinham (e queriam mais...) e aqueles que (sobre)viviam graças a uma constante caridade daqueles que têm... e decidem o que dar.
Não esquecendo que estamos no início da década de 90 - aliás 1992 foi o ano da primeira Presidência Portuguesa da então Comunidade Económica Europeia - em que Portugal parecia querer dar aquele grande salto de um provincianismo rural para uma sociedade industrializada e rica onde tudo era prometido - qual ilusão! - O Segredo das Pedras Vivas é uma constante dualidade social comparável entre o país e essa Europa então ainda distante. De uma sociedade que vivia num conflito entre o antigo (nós) e o moderno (a Europa) - logo melhor - entre a protecção dos bens históricos e culturais versus uma prosperidade económica que em tudo ameaçava descaracterizar o país subsistem, pelo meio, todo um conjunto de rituais antigos onde as lendas, as tradições e principalmente as velhas superstições pagãs e, como tal, proibidas face aos olhos de uma sociedade muito católica, fazem parte da vivência diária de uma população que prefere acreditar nesse legado histórico que tão bem caracterizava a sua vida e cultura.
O Segredo das Pedras Vivas que, contrariamente ao que o realizador António de Macedo diz tinha muito mais a ganhar com a manutenção do título da mini-série - O Altar dos Holocaustos - é assim essencialmente o registo de um constante conflito; cidade versus campo, Portugal versus Europa, traições versus modernidade, o respeitável e o pagão, o rico e o pobre. O altar que de divino pouco tem, era marca desse tal holocausto social que parecia querer exterminar todos aqueles que se deixavam enveredar pela teia de uma mudança acentuada e que nem todos conseguiriam acompanhar... afinal, ainda o sentimos hoje... mantendo o rico cada vez mais rico e com poder para ultrapassar os pequenos entraves com que se deparava, e o pobre cada vez mais pobre, descaracterizado, vulnerável e susceptível de definhar face a um mundo que, de forma acelerada, não esperava por ninguém.
Mas O Segredo das Pedras Vivas tem ainda uma interessante, se bem que também vulnerável, característica quando tenta de forma mais ou menos explícita inserir o espectador num olhar crítico sobre as suas necessidades, vícios, hábitos por vezes já consumados questionando-o (nos) se estamos dispostos a abdicar dos mesmos em nome de uma consolidação social igualitária que a todos permitisse a tal vida digna tão ambicionada e devida... No seio de discursos eventualmente moralistas - também um fruto desses idos anos onde ainda se fazia sentir alguns traços do antigo regime salazarista tão presente nas comunidades rurais e que são, eles próprios, referidos numa intervenção de "José Vitorino" - aquilo que se constata é que nem sequer - nem todos - se está disposto a abdicar do excesso e da opulência em nome do tal "bem comum"... porquê ter um pouco menos dando primazia ao "outro", quando posso ter tudo e ser sempre visto como uma potencial referência de sucesso?! Num mundo em que todos são "iguais" (que são...) o que diferenciaria um... do outro? O que o tornava especial numa pirâmide social que, dessa forma, não emitiria diferenças? Quando se dá... que seja o que não se quer... não o que os outros precisam... e quando se o faz, que se faça com aquilo que já foi "por mim" usado... nunca com algo que eu não tenho, não usufruí ou que custou tanto como o que tenho. Num ciclo de ganância e de soberba... poucos resistem à tentação de querer ser mais do que aquilo que são... e especialmente daquilo que os outros têm.
Num rumo de opostos e de superstições que não descolam da mente humana habituada ao pequeno burgo onde todos se conhecem e sabem onde estão, como estão e com quem estão, O Segredo das Pedras Vivas é - qualidade técnica à parte - um interessante estudo social sobre o Homem mas, para lá disso, uma mordaz caracterização de uma comunidade centrada em si, nos seus problemas e no seu conservadorismo que teme o desconhecido, que olha de frente (baixando a cabeça) para um sinal exterior de riqueza e que, acima de tudo, não se esquece de evidenciar como os velhos costumes pagãos se fazem sentir - ainda "hoje" - no seio de uma comunidade esquizofrénica que não sabe que lugar ocupar dividido entre o progresso de uma Europa indiferente e o conservadorismo de uma sociedade que nem a si se compreende.
Destaque para as interpretações de registo mais descontraído e cómico de André Gago e Helena Isabel, para a presença da dita "velha guarda" como Carlos Coelho, Joaquim Rosa ou Catarina Avelar que tanta falta fazem nos nossos ecrãs (e os dois primeiros já desaparecidos) e de uns jovens Rita Salema e João Reis, rostos frescos de um panorama audiovisual português que parecia ainda com medo de "arrancar" e mostrar toda a sua qualidade e potencial.
Justa a edição para cinema - como lhe era devido - de O Segredo das Pedras Vivas mas, ainda assim, não será aquele filme que conseguirá cativar o espectador menos predisposto a olhar para um passado ainda tão preso a produções menos ambiciosas, nas quais se espera que seja o espectador a retirar mais do conteúdo dos momentos do que aquele que está - à partida - mais explícito.
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5 / 10
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