quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Florence Foster Jenkins (2016)

.
Florence, Uma Diva Fora de Tom de Stephen Frears é uma longa-metragem britânica baseada na história verídica de Florence Foster Jenkins (Meryl Streep), uma milionária de Nova York que sempre teve o sonho de se tornar numa cantora lírica e poder dar um espectáculo na mítica sala do Carnagie Hall. No entanto, Florence tem um problema... a sua terrível voz.
Num registo de comédia com um drama profundo entrelinhas, Florence Foster Jenkins é uma essencialmente comovente história sobre um espírito livre e resiliente que viveu a vida à sua própria maneira.
Com argumento de Nicholas Martin, Florence Foster Jenkins é desde logo um acontecimento na medida em que encontra a sua "vida" cinematográfica graças a um espírito também ele maior como é o de Meryl Streep. Tudo já se disse sobre esta lenda do cinema dos últimos quarenta anos mas, no entanto, nunca é demais referir não só o seu evidente talento como a humanidade conferida a cada uma das suas personagens - ficcionadas ou verídicas - que ganham uma alma suficientemente grande para, no seu íntimo, poderem criar elos de ligação com os espectadores. Streep de quem tantos já disseram ser a "maior actriz viva" confirma, antes de tudo, ser dona de um apurado sentido capaz de captar o lado humano da sua personagem e transformá-la "num de nós" que fielmente a observamos.
É com esta mesma humanidade - no olhar, nas expressões e naqueles pequenos grandes silêncios que transmitem um extenso passado que a (à personagem) transformaram - que o espectador cria uma ligação imediata com a sua "Florence". De origem abastada mas dona da sua própria vida ao ser afastada de uma herança que seria sua - e foi - por direito, "Florence" ganhou o controlo dos seus movimentos por, muito cedo, se ter tornado independente. O teatro, a representação e acima de tudo a música foram desde cedo uma paixão que nunca perdeu. Desde ensinar piano às crianças de Filadélfia onde viveu até aos dias do The Verdi Club onde interpretava grandes improvisações de teatro e ópera, "Florence" vivia uma vida de um aparente fausto e leviandade quando, na realidade, a sua vida entre paredes escondia uma tragédia pessoal que todos desconheciam. Desde os efeitos nefastos de uma sífilis fruto de um desastroso primeiro casamento que não só a impediram de ser mãe - o seu grande desgosto - como a condicionaram a nível de saúde, "Florence" vive uma euforia pública que contrasta com a enorme solidão sentimental que a consomem de forma marcante. Solidão essa que apesar de vivida na companhia de "St. Clair Bayfield" (Hugh Grant), o marido que a acompanha em todos os seus caprichos, não deixa de ser sentida como uma fatalidade que só ela compreende e sente.
"St. Clair" é um homem boémio... Companheiro de "Florence" mas sentimentalmente distante dela apesar de nutrirem um intenso carinho e devoção. Longe de um amor - ou talvez não -, a relação que os une quase se equipara àquele que duas almas perdidas nutrem como forma de se complementarem num equilíbrio imperfeito, confundindo amor com amizade, devoção ou até mesmo dedicação. Duas almas que se compreendem, que entendem os silêncios proferidos, as ausências nunca questionadas ou até mesmo a vida dupla de "St. Clair" que, no entanto, nunca lhe falta... ou falta... naqueles momentos noite dentro onde se percebe realmente a dimensão de um silêncio indesejado. Ele, ainda que frequentemente ausente, não deixa de cuidar dela... de perceber as suas crises sentimentais, os seus vazios e aquilo que ela sente faltar-lhe e deixá-la incompleta. A relação que os une facilmente poderia ser equiparada à de um perceptor que cuida das dificuldades de uma criança com sonhos e vontades maiores que a vida... Criança essa que, no entanto, tem o poder financeiro suficiente para vê-los tornados realidade e que tudo faz para que tal aconteça. A cumplicidade entre os dois é notória... e ainda que não existe um amor carnal, é inegável que a dedicação e disponibilidade sentimental - mesmo que entre dois amigos - existe e é de fácil confirmação.
"Florence" é uma mulher com um coração grande... eventualmente grande demais em comparação para o tempo de vida que poderia (ou deveria?) ainda ter, e como todos os corações grandes, também o dela era povoado por um grande número de pessoas que rindo nas suas costas, se aproveitavam da sua generosidade para encher os seus bolsos. Do ridículo ao oportunismo, "Florence" era uma mulher desatenta (ou talvez voluntariamente indiferente), manifestando-se apenas rumo à concretização dos seus próprios sonhos.
"Florence" é essencialmente um espírito livre. Uma mulher que aplicou as suas posses na concretização dos seus desejos, na vontade de fazer reais ou seus sonhos, as suas ambições e os seus caprichos compreendendo que a vida poderia ser limitada e que o prazer com ela se iria desvanecendo. De forma mais ou menos consciente, "Florence" queria assistir à concretização da sua grande paixão... limitações ou dificuldades à parte. Assumida patrona das artes - ou de alguns artistas -, "Florence" foi, de forma descontraída fruto da sua enorme ingenuidade, uma mulher que pisou o palco que sempre ambicionara... olhou para uma sala cheia... sorriu com o aplauso de um público que delirava com o seu "mau" espectáculo e quebrou com as pesadas críticas que o mesmo recebeu. Mulher de um único espectáculo, "Florence" vivia na sombra de uma fama nunca alcançada, da piedosa mentira de um restrito grupo de amigos que tinha por ela uma extrema e dedicada admiração e que por desconhecimento, empatia... ou uma acentuada surdez a deixava viver nos limites do seu próprio sonho.
Recentemente comparável à nossa Natália de Andrade e ao seu intenso sucesso O Nosso Amor é Verde, "Florence Foster Jenkins" é acima de tudo uma mulher maior que a vida, com um humanismo extremo e dedicado, com uma capacidade de amar os seus amigos mais do que a si própria, sempre disponível para os pedidos dos que a rodeiam e o retrato de uma mulher marcada por um passado que apenas brevemente a deixa afectar preferindo, por sua vez, viver as alegrias de uma vida relativamente abastada, os prazeres de um sonho cumprido e a dedicação de um exclusivo grupo de amigos que contra todas as opiniões nunca a abandonou na sua aventura em vida real... quantos de nós poderão dizer ter (ou ter tido) o mesmo?
Com um registo quase impecável na direcção de actores que poderemos confirmar com Glenn Close em Dangerous Liaisons (1988), Anjelica Huston e Annette Bening em The Grifters (1990),  Judi Dench cem Mrs. Henderson Presents (2005) e Philomena (2013) e Helen Mirren em The Queen (2006), Stephen Frears arrisca-se a ver Meryl Streep com a sua tão esperada vigésima nomeação aos Oscars num desempenho que - espero - não se perca com a estreia antecipada de Verão, nem com o enorme conjunto de fortes interpretações femininas que marcam este ano já bem perto do final. Streep é - passo o lugar comum -... Streep. É um erro "apostar" contra ela e com a empatia que qualquer um de nós consegue estabelecer não só com ela mas também com as personagens às quais dá vida. Torna-se, arrisco dizer, enternecedora a forma como até das personagens mais frias e distantes se consegue retirar aquele pequeno traço de carácter que faz o espectador parar e perceber "eu conheço... sou... tenho.... isto"... e é esta mesma capacidade de aproximar aquele a quem dá corpo e alma que a coloca sempre como uma potencial "oscarizável". Ainda longe de poder fazer uma avaliação sobre o que se irá passar até final do ano... por aqui, Streep é o nome a reter para já.
Mas Streep tem ainda um fortíssimo trunfo a acompanhá-la. Muitos falam da personagem interpretada por Hugh Grant, pelo extremo dinamismo enquanto o bon vivant que partilha tecto com ela mas, por sua vez, eu destaco o desconcertante realismo de um inadaptado Simon Helberg e o seu "Cosmé McMoon"... o tipo novato e recém chegado a uma cidade grande demais e que os olhos não alcançam, que encontra a sua oportunidade de ouro ao acompanhar uma mulher que... não sabe cantar. Sempre num registo cómico e com a noção de que o seu inadaptado é, também ele, uma forte e compenetrada alma, Helberg consegue dinamizar e marcar o seu espaço num filme que é feito para Streep brilhar.
Dono de uma reconstituição de época assumidamente perfeita. Florence Foster Jenkins é a mais recente entrega cómico-dramática de um brilhante realizador britânico que não só ilumina os seus filmes como principalmente as suas personagens, humanizando-as e transformando-as, independentemente das suas origens, naquilo que é tão necessário ver em cinema... pessoas com sonhos, esperanças, desejos e caprichos... no fundo, humanos como todos nós.
.

.
"Florence Foster Jenkins: People may say I couldn't sing, but no one can ever say I didn't sing."
.
8 / 10
.

Sem comentários:

Publicar um comentário