sábado, 10 de setembro de 2016

The Purge: Election Year (2016)

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The Purge: Election Year de James DeMonaco é uma longa-metragem norte-americana e o terceiro título da saga iniciada com The Purge (2013) e seguido por The Purge: Anarchy (2014), presente na secção Serviço de Quarto da décima edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorre até amanhã no Cinema São Jorge.
Todos os anos a 21 de Março é celebrada A Purga, um acontecimento no qual durante doze horas a lei é suspensa e todo o tipo de crime é legal. Leo Barnes (Frank Grillo) é chefe de segurança de Charlie Roan (Elizabeth Mitchell), uma candidata à Presidência dos Estados Unidos que se opõe a esta prática e promete, caso eleita, de lhe pôr um fim.
Numa corrida contra o tempo, Barnes terá de proteger mais do que nunca a vida de Charlie na noite de uma cidade onde tudo e todos são um perigo para a segurança interna e principalmente para a da senadora que pode ver na sua eleição... o fim d'A Purga.
Depois de em The Purge: Anarchy (2014) acompanharmos a história de um desgostoso "Barnes" na ressaca de ter perdido um filho, The Purge: Election Year recupera-o para dar continuidade como um determinado guarda-costas de uma senadora que enfrenta o perigo e todas as adversidades para terminar aquele que é o mais selvagem acto de um país à beira da ruptura. O argumento, também da autoria de DeMonaco, junta a odisseia pessoal de "Barnes" à de "Charlie Roan" (Mitchell), a senadora que sofreu às mãos d'A Purga a perda da sua família e que agora pretende ascender ao mais alto cargo da nação e eliminar todas as injustiças da mesma e à qual a lei fecha os olhos a favor dos superiores interesses de uma elite que se instala não tão secretamente no país dominando os destinos daqueles que são mais frágeis e desfavorecidos.
Ao longo dos instantes iniciais de The Purge: Election Year, Demonaco cria o ambiente que descreve de forma perfeita muitos dos conflitos sociais que assolam os dias que hoje vemos correr... Os problemas sociais a aumentarem graças a um sufoco económico e financeiro onde a saúde, a educação, a habitação e a assistência social não são vistos como direitos mas sim como fardos que uma camada economicamente desprivilegiada "usa" sem contribuir devidamente para os mesmos são - e estão - tão na ordem do dia (na Europa e francamente acentuados nos Estados Unidos) que as coincidências... não o são. A ideia - ideal - de Estado não interventivo onde sobrevivem os mais aptos - ou, de outra forma, aqueles que mais dinheiro têm - é, no fundo, a máxima de The Purge: Election Year onde uma elite de direita xenófoba e ultra conservadora vê naqueles que mais necessitam uma praga que tem de ser eliminada. Recorrer a esta purga legalizada e onde todos se podem automaticamente eliminar sem qualquer represália, é o mote perfeito para "de mãos limpas" deixar quem menos tem degladiar-se entre si... e pelo meio lançar o caos e alguns mercenários que acabem por fazer o restante trabalho.
Esta Purga vista por uma abastada classe política - e demais elites - como um instrumento necessário para evitar a derrocada económica do país denota, ao mesmo tempo, todo um conjunto de elementos xenófobos onde os pseudo-ideais de "supremacia branca" (bem referenciados ao longo do filme) ganham contornos assustadores inclusive para a realidade que vivemos nos nossos dias onde assistimos diariamente a relatos bem complicados sobre tensões étnicas e raciais nos Estados Unidos que, curiosamente ou não, se encontram em pleno ano... e acto... eleitoral. Se pensarmos ainda que durante a referida Purga de The Purge: Election Year todos passam a ser potenciais vítimas - incluindo o poder político que frontalmente se lhe opõe - então esta longa-metragem norte-americana ganha contornos ainda mais sérios se o espectador o equiparar aos estranhos dias e debates eleitorais que assiste vindos do outro lado do Atlântico.
A morte chega então vinda de todo o lado... este filme ganha a sua componente de espectáculo e de mediatismo quando tão ironicamente apresenta o chamado "turismo de morte" - que não é de todo ficcionado - revelando a importância de acontecimento tão "americano" que atrai todo o tipo de indivíduos das mais variadas partes do mundo para participarem - e quem sabe replicarem - nestes acontecimentos e dele tiraram algum prazer mórbido pela morte, destruição e também profanação da vida... tida como o mais sagrado para todos os Estados (não será através dela que se confirma e dá continuidade à própria identidade de um povo?). É esta mesma morte que se evidencia ao longo de uma noite... Uma noite onde não existem limites, onde a imaginação ganha contornos de sadismo e onde tudo vale para expiar e eliminar a vida alheia... anónima ou conhecida... desde que de alguma forma... durante as horas ditas "normais", esta tenha atentado contra aquilo que alguém "defende"... A Purga, tão legal e necessária aos olhos de alguns, acaba por se tornar no elemento indispensável para garantir que a sociedade - aquela que "conta" - se livrar dos elementos indesejados... desde sem-abrigo ao vizinho do lado que incomoda... desde os oponentes ou opositores políticos... ninguém escapa e por mais mórbido que seja o crime, quem o comete ou os seus porquês - se é que alguns - tudo vale numa noite em que a lei desaparece sem consequências...
Num ano de eleições presidenciais e onde o espectador mais (des)atento é surpreendido com todo um conjunto de notícias que nos chegam do outro lado do oceano, The Purge: Election Year é, apesar de ficcionado, um assustador relato que facilmente podermos comparar a algumas teorias e discursos de políticos norte-americanos tão concentrados em encontrar um bode expiatório que justifique todos os desaires económicos do país... o tal "eu" e "eles" que separa e divide corrompendo toda uma sociedade que assim encontra a "culpa" pelos seus males e desumaniza o "outro" como forma de poder alcançar algo que nunca viu até então. Do fanatismo político apoiado pelo religioso e ideológico sem esquecer as justificações encontradas por estes para explicar e justificar a crise e afundamento social de um país diverso e multicultural que cada vez mais se distancia e reprime, The Purge: Election Year acaba por se transformar numa óbvia - mas inteligente - crítica ao american way of life na medida em que revela, através de uma ficção, os mais profundos ódios raciais, xenófobos, culturais e sociais tendo, todos eles, um fundamento económico pouco fraterno onde se "eu" tenho... tu "não podes" ter... Ou pior... para "eu" ter... "tu" não podes...
Com um ritmo frenético onde o espectador é "presenteado" com a barbárie relativamente disfarçada e um elenco que funciona de forma coesa e representativa do tal melting pot étnico-sócio-cultural, The Purge: Election Year é o relato de uma sociedade levada ao limite onde a sua população se deixa iludir pela presença de bodes expiatórios que são a causa e o motivo da ruína económica e financeira de um país que alimentou déspotas disfarçados de boas intenções deixando aqueles que mais necessitam à margem da mesma.
Intenso desde o primeiro instante e enervante desde que as doze horas d'A Purga se iniciam, The Purge: Election Year é o culminar de uma saga que é não só o retrato de uns Estados Unidos centrados numa realidade muito própria mas também a assustadora imagem de um modelo social que muito recentemente assolou(-nos) deste lado... ainda que a violência física não tenha ganho os contornos aqui retratados... por enquanto...
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