sábado, 17 de novembro de 2018

Beautiful Boy (2018)

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Beautiful Boy de Felix van Groeningen (EUA) marcou o segundo dia do LEFFEST - Lisbon & Sintra Film Festival a decorrer no Centro Cultural Olga de Cadaval, em Sintra e nos Cinema Monumental e Cinema Ideal, em Lisboa até ao próximo dia 25 de Novembro.
David Sheff (Steve Carell) e Nic (Timothée Chalamet) são pai e filho cúmplices. Em Beautiful Boy acompanhamos a relação entre os dois que ultrapassa o encanto da descoberta da juventude de Nic pelo próprio bem como o desencanto inexplicável pela sua vida quando se deixa afundar no submundo da dependência e toxicodependência enquanto a restante família sobrevive num limbo dividindo-se entre a sua recuperação e o testemunho da perda da sua inocência.
Tido como um dos mais fortes candidatos à próxima edição dos Oscars entregues pela Academia Norte-Americana de Cinema, Beautiful Boy é seguramente um dos mais chocantes e emocionantes filmes que passa(rá) nesta edição do LEFFEST. Sempre numa perspectiva de passado e presente - belíssima a edição de Nico Leunen - que nunca desampara o espectador independentemente da viagem temporal a que o obriga permitindo, dessa forma, observar a dinâmica entre pai e filho, Beautiful Boy transpira de uma inesperada nostalgia. Tudo tem início quando observamos a personagem interpretada por Steve Carell a querer contar algo sobre o seu filho. É a partir deste pequeno segmento que o espectador compreende que existe algo por contar sobre a dinâmica e relação desta família. Conhecedores ou não do argumento e dos factos que se seguem, o espectador é imediatamente preso a esta história pela compreensão de que uma tragédia se prolonga na mesma. Aos poucos, e sempre num registo temporal que pressupõe a aceitação dos segmentos como registos francos e fragmentados da sua memória, Beautiful Boy oscila entre a dinâmica cúmplice de pai e filho - tendo sempre a demais família como secundários de peso para a mesma - e a deterioração da sua relação fruto da dependência de "Nic" que o leva inicialmente aos pequenos furtos dentro de casa e, posteriormente, a uma toxicodependência que primeiro o afasta da família e de seguida (como o espectador depreende com o tempo) dos próprios sonhos que a sua ida juventude (apesar de jovem) lhe permitiram alguma vez sonhar.
É esta dinâmica entre pai e filho que acompanhamos enquanto uma evolução constante da mesma, sempre cúmplice apesar de um crescente afastamento, que o espectador observa e da qual espera um clímax instantâneo... que nunca chegará. Aqui o que é revelado é a lenta, mas sistemática, destruição dessa relação corrompida pelos silêncios, pelos segredos inconfessáveis e pelas mentiras, pelo sentido sufoco de que um sofrimento sentido no escuro nunca poderá ser compreendido pelos outros e que, a cada momento em que a dependência se torna mais intensa, é um passo em retrocesso para a relação familiar que se sente nunca poder ser recuperada. Assim, e no meio deste precipício que se anuncia, "Nic" distancia-se do pai não pela falta do amor que sabe que este sente por si mas pela consciencialização de que os seus passos em falso são uma desilusão para a imagem de filho que o seu pai criou estando (para si) a "obra" deformada na perspectiva do seu criador.
Nunca chegando a compreender completamente - se é que motivos existem!! - o que terá levado "Nic" a esta dependência, o argumento de Beautiful Boy, escrito por van Groeningen e Luke Davies a partir da obra homónima de David Sheff e Tweak do próprio Nic Sheff, reflecte primeiramente a união e o amor de uma família. É a partir desta base que futuramente se compreende não a queda no abismo mas sim a eventual recuperação de "Nic" bem como a entrega que pai e filho depositam na esperança de que serão sempre os portos seguros um do outro - mesmo com a fragilidade e incerteza que os comportamentos de "Nic" fazem despertar - sem que, no entanto, esta longa-metragem caia nos lugares comuns de julgar qualquer uma das personagens (reais e não ficcionadas) ou tão pouco as sucessivas incursões de jovem "Nic" na esperança de uma recuperação que parece tardar a chegar.
Se a dinâmica entre pai e filho são, fundamentalmente, o essencial desta história, é a segura mas contemplativa mão de Felix van Groeningen que lhe conferem uma esperada ambiência fundada na cumplicidade e na devoção, para com a família, já sentida em obras anteriores como, por exemplo, De Helaasheid der Dingen (2009) ou The Broken Circle Breakdown (2012). Não é suposto o espectador julgar ou tirar qualquer tipo de conclusão precipitada sobre os comportamentos ou dinâmicas familiares aqui retratadas... na prática, ninguém saberá como poderia reagir a uma situação familiar que lentamente se degradasse em frente aos próprios olhos. Por sua vez, aquilo que van Groeningen pretende com a sua abordagem é retratar a total entrega para que um "do grupo" não ceda à tentação ou à decadência estando, para isso, sempre isentos quanto à dedicação que no mesmo é depositada. Mais alternativas ou mais conservadoras, quer sejam de um comportamento mais irascível ou temperamental, todas estas personagens retratadas pelo realizador belga são fruto de uma realidade que pode encontrar-se já ao virar da rua e com a qual qualquer um de nós se poderá retratar - dependências à parte -, e que revelam uma vulnerabilidade latente comum a tantos de nós.
De um Steve Carell que conhecemos das suas inúmeras incursões na comédia e que tem retirado das suas prestações algumas das mais memoráveis nos últimos anos nesse campo, consegue aqui dar corpo a um pai que, não querendo utilizar a expressão sofrido, se deixa também consumir pela dependência do filho mas, ao mesmo tempo, conhecer toda uma faceta do mesmo que desconhecia... não pelos seus comportamentos mas sim pela sua dinâmica psicológica que lentamente se revela pelas pequenas pistas e indicações que são deixadas (talvez não ao acaso) por um filho que silenciosamente gritava por um pedido de ajuda, a um Timothée Chalamet que se revela pelo segundo ano consecutivo - depois de Call Me By Your Name (2017), de Luca Guadagnino - como um dos mais importantes nomes de uma nova geração de actores que aqui entrega mais uma intensa representação de alguém dividido entre a dependência e o sentimento de uma culpa muito expressada por dela não se conseguir libertar, Beautiful Boy poderá até ter como intuito despoletar o tal alerta sobre os perigos da dependência. No entanto, e sempre com uma intensa banda-sonora que sonoriza na perfeição todo um conjunto de momentos e estados de espírito, a esperada mensagem final não será tanto sobre esse alerta mas sim sobre toda uma longa e por vezes exasperante etapa da (nossa) entrega e devoção àquela pessoa que poderá ter tanto de nós e a qual desejamos que recupere de um período negro, frágil e vulnerável que atravessa(rá). Não tanto sobre a resistência à dependência daquele que a atravessa mas sim sobre a resiliência daqueles que a acompanham de lado e sobre o efeito transformador (e revelador) que todo o processo faz conhecer - numa perspectiva auto-avaliatória - compreendendo, dessa forma, que o espírito humano (alguns poderão chamar-lhe amor) tem tanto ou mais por conhecer e resistir do que aquilo que qualquer um de nós poderia admitir numa primeira instância
Beautiful Boy, ainda que com um pano de fundo sobre essas dependências, centra-se portanto - senão mesmo totalmente - na capacidade de resistir a uma adversidade extrema que coloca à prova tanto física como mentalmente o espírito e a alma desse sentimento a que vulgarmente todos chamam de amor.
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9 / 10
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